São Paulo, 05 – Mesmo considerado um dos países que saiu mais fortalecido da crise internacional que teve seu auge em setembro de 2008, o Brasil voltou a sentir os efeitos das turbulências que castigam os mercados financeiros do mundo nos últimos dias. Seguindo os movimentos das Bolsas europeias e norte-americanas, o índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) despencou, só ontem, 4,73%. Hoje, por volta das 16h45, o índice perdia mais de 4%, elevando a queda acumulada no mês para mais de 6%.
Esse contágio percebido pelas ações brasileiras mostra que, na hora em que a aversão ao risco cresce, o investidor para de olhar para os fundamentos. A ordem é interromper os prejuízos e correr para ativos considerados seguros e pouco voláteis – condição ocupada, apesar de toda a crise, pelos papéis da dívida
norte-americana, os chamados treasuries.
A forte presença de capital externo e, sobretudo, seu perfil agressivo e ágil na compra e na venda, explica a repercussão dos movimentos externos sobre a Bolsa brasileira, segundo o analista da Gradual Investimento Flávio Conde. “O nível de poupança nacional, incluindo fundos de pensão, pessoas físicas e outros
investidores, não garante um fluxo de recursos suficiente para fazer a Bolsa subir ou cair vigorosamente”, afirma Conde. Ou seja, quem dá força aos movimentos é o capital externo, que tem hoje uma grande mobilidade entre os diferentes mercados e países.
Foi ele quem sustentou o ganho acumulado de quase 83% em 2009, e é ele quem está usufruindo esse ganho acumulado agora para cobrir seus prejuízos no exterior. “O investidor entra e sai com rapidez porque as barreiras ao capital foram reduzidas a quase zero nos últimos dez anos”, explica. Segundo dados da
BM&FBovespa, no mês de janeiro, 28% das transações de compra e venda de ações na bolsa brasileira foram feitas por investidores estrangeiros. Essa participação já foi bem maior, próxima a 37%, entre junho e julho do ano passado.
O sócio diretor do banco Modal, Eduardo Cotrim, observa que, se o investidor que está levando prejuízo lá fora é o mesmo que sustenta a bolsa aqui, na hora da volatilidade, o ajuste das carteiras afeta todos os papéis. Ele explica que os portfólios têm sempre um limite de risco – o conjunto de ativos pode, por exemplo,
oscilar 2% para cima ou para baixo. E, quando a volatilidade aumenta, o gestor tem de ajustar sua carteira para enquadrar esse risco.
Conde, da Gradual, observa ainda que o investidor tem um limite de perdas que ele pode suportar em sua carteira. Quando o prejuízo atinge um determinado nível, é acionado o chamado stop loss, que obriga o gestor a vender os ativos, mesmo com perdas. “Para cobrir essa perda da carteira, ele vende outros ativos,
em outros mercados”, explica. “E é isso que muita gente está fazendo neste momento.” Na pressa de acabar com o prejuízo, o investidor vai vender justamente os mais líquidos.
E, nessa hora, os papéis brasileiros são vítimas de seu sucesso: com boa demanda junto ao mercado internacional, Petrobras, Vale, Usiminas, Gerdau, Bradesco, BM&FBovespa, entre outras, acabam puxando as perdas, porque são vistas como boas portas de entrada e de saída no mercado brasileiro. E, o que é melhor, com bom ganho acumulado. “A liquidez é uma coisa positiva dos ativos brasileiros, mas ela ajuda a explicar porque elas caem mais na hora da crise”, explica Conde.
Mas a globalização vai muito além da contabilidade de perdas e ganhos. O desempenho da economia real também está estritamente relacionado às perspectivas da economia global. Afinal, o Brasil é exportador de commodities e a evolução da demanda internacional vai influenciar a rentabilidade das empresas produtoras dessas matérias-primas. E as empresas produtoras de commodities – como Petrobras, Vale e siderúrgicas – têm uma participação de cerca de 40% no Ibovespa. Ou seja, as dúvidas sobre o rumo do consumo externo afetam diretamente o apetite do investidor por esses papéis.
Fonte: Agência Estado (Lucinda Pinto)




Seja o primeiro a comentar essa matéria